Aqui
estou eu, sentada sobre a velha cadeira de balanço que Josefina,
minha única filha, gostava tanto!
Lembro-me
bem que no ano de 1946, do dia de minha querida santinha de devoção,
Nossa Senhora da Esperança, vi Josefina, na sala da nossa casa,
conversando com a cadeira, a que contei anteriormente.
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| Dona Otília, a dona desta história |
Eu
escolhia os feijões da última colheita, e quando passava de um
cômodo para outro, a via sempre entretida. Parecia que a cadeira,
para ela, era a sua melhor amiga, e que a ela contava seus segredos.
Cheguei
a pensar que ela precisava ter mais contato com a criançada, ou ter
uma ocupação, até mesmo bordado e crochê como as mocinhas da Rosa
do Chico. Tanto talento tinham, e ainda ajudavam nas despesas da
casa, pois eram em cinco pessoas. Mas pensei melhor e mudei de ideia.
Josefina era muito menina, não iria se animar em ver linhas e
agulhas e panos de bordado na maior parte do dia, enquanto a molecada
brincava lá fora. Graças a Deus, meu marido tinha boa renda, e dava
pra viver com luxo em relação às famílias da minha época.
Apesar
de morarmos numa cidadezinha do interior, onde ainda se brincava do
que meu irmão e eu brincávamos, por volta de 1927, Josefina
preferia ficar horas conversando com as amigas, brincando sozinha ou
andando pelo pomar, tocando e apreciando os frutos do nosso abençoado
sítio.
Mas,
naquele dia foi diferente. Era como se estivesse com alguém de
verdade, pois ouvia, falava e tentava tocar, o que a fez parecer
estar alegre como nunca a vira antes.
Olhei
para a sala, e a vi novamente. De supetão, parei de escolher os
feijões, me levantei e fui conversar com ela. Recordo-me até das
palavras que usamos, e do olhar que ela me deu, ao me aproximar.
-
O que você está fazendo aí, em frente a essa cadeira há tanto
tempo, minha filha?
-
Mãe, é a vovó, não tá vendo?
Naquele
momento percebi que os pelos do meu corpo se arrepiaram. Por mais que
eu não acreditasse que os mortos pudessem manter contato conosco, as
palavras de Josefina eram tão convictas, que não aguentei e desabei
em lágrimas.
Josefina
parece que compreendeu minha emoção. Mesmo em prantos, tive forças
para perguntar a ela:
-
E o que vovó te disse?
-
Ela disse que sempre vê o tudo o que eu faço. Mas como, mãe, se
ela tá lá no céu, como a senhora sempre diz?
-
Mas de lá de cima deve dar pra ver tudo, minha filha, tudo. Acho
que, quando ela quer, vem aqui em casa, como agora, nos visitar. Só
que quase sempre não a vemos
-
É verdade mãe, porque depois que a senhora veio, ela levantou da
cadeira e me disse que sempre tá perto da gente, que eu vou vê-la
de novo e que não vai demorar... Parece que ela não queria mesmo
que a senhora a visse.
Lembro-me,
chorei demais pelas palavras que minha mãe, a avó de Josefina,
usou. Como "não vai demorar"? Naquela época, minha filha
tinha apenas onze anos, não suportaria perdê-la!
Só
depois de sete anos é que parei de pensar no que aconteceu, no ano
em que Josefina se casou. Minha mãe sempre dizia que no céu não se
tinha noção de tempo, e talvez fosse verdade. Talvez não fosse a
morte o que minha falecida mãe se referia; talvez ela apareceu à
minha filha outra vez e ela não me contou; talvez eu tivesse sofrido
em vão.
Somente
no ano de 1978 eu, aos sessenta e um anos, entendi, finalmente, o que
mamãe quis dizer. Josefina faleceu de câncer no pulmão, aos
quarenta e três anos.
Sofri
durante anos, apesar de ter aproveitado bem o tempo que estive com
ela nesta vida.
Consegui
superar a dor com a ajuda das minhas queridas netinhas, a Roseli e a
Patrícia e com as lembranças da minha Josefina.
Hoje
elas são professoras, ensinam os jovens a ler e a fazer continhas,
coisas que eu não tive oportunidade quando menina, só depois de
velha.
E
agora olhando para essa cadeira tão antiga, na qual faço meus
tapetes pra vender quando vêm visitas aqui no asilo, onde moro hoje,
ainda tenho forças pra continuar, pois sei que há muita gente que
sofreu muito mais do que eu sofri. Acredito que como Josefina, breve
estarei ao lado de minha mãe e de meu marido lá no céu, com os
anjos, os santos e com o meu bom Deus.
Autora: Andressa Francelina

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