domingo, 6 de dezembro de 2015

Margarida


Foto: Via vanderlandomingod.blogspot.com

Nos conhecemos e logo nos demos bem.
Como não me encantar com essa senhora de nome de flor? Ainda mais, minha flor preferida!
Teci tranças com seus longos fios grisalhos.
Comprei bilhetes de loteria, me vesti de noiva com o vestido que ela costurou pra mim, conheci seu marido (‘’um pedaço de mal caminho’’).
Fiz tudo que ela me propôs, tudo que acontecia em seu mundo.
Nos tornamos amigas.
Certo dia, cheguei e ela não estava lá.
‘’Caiu’’, disseram. ‘’Foi pra Santa Casa.’’
Me entristeci. Começava março.
No dia do meu aniversário, cerca de uma semana depois, retornei ao asilo.
Lá estava! Margarida!
A pobrezinha, porém, estava abatida.
Não falava, não vendia seus bilhetes, não me contava da Hungria.
Sentei-me ao seu lado e lhe dei a mão.
Ficamos em silêncio, colocando o carinho no olhar.
Um bom tempo depois, ela sorriu.
E sorrindo, disse: ‘’é seu aniversário. Vá ao jardim e colha as flores mais bonitas. Esse é meu presente.’’
Depois, nunca mais ouvi sua voz.

Mas esse presente, eu ainda guardo comigo. 
Autora: Larissa Lopes

O tempo

O tempo passa rapidamente para todos nós. Nascemos, crescemos e envelhecemos, é assim para todos como um ciclo, um ciclo que rege todos os seres vivos. 
E qual a primeira coisa que lhe vêm à mente, quando se ouve a palavra velhice?
Imagem: Via hierophant.com.br
Podemos associar a rugas, porém, essas marcas são apenas lembretes do que aquela pele sentiu, de todas as sensações, todos os prazeres e dores, de todos os amores e desamores. A memória já não é mais a mesma, se esquecem das coisas do agora, todavia trazem o passado consigo.
Sentem-no como se fosse o presente. Todas as pessoas que participaram das suas vidas, talvez hoje mortas, estão vivas, são e salvas. A perda nunca os ocorreu e não pode-se julgar, talvez tenha sido a forma menor dolorosa de suportá-las. Mas para quem sabe que o passado está distante, é impossível contar a própria história sem se emocionar. Sem lembrar de cada perda, derrota, de cada vitória, cada escolha, de todos os caminhos de mão dupla que as envolveram.
É com orgulho que contam o que são hoje, tudo o que passaram para chegar onde chegaram. Mesmo com toda a nostalgia, sabem, que cada segundo valeu a pena e nós que vivemos o futuro passado como presente, devemos aproveitar.
Pois nada substitui a sensação de olhar para trás, ver todas as situações, todas as risadas e sorrisos, todas as vezes que chorou e perdeu a calma, quando passou por coisas marcantes e todos os momentos que nada aconteceu, como as tardes preguiçosas de domingo, todas as pessoas que conheceu, que amou ou odiou, nada é maior do que olhar e sentir-se vitorioso com a vida.
O tempo passa rapidamente para todos nós.
Autoras: Beatriz Miranda e Laura Chaile

Shirley

Imagem Ilustrativa | Créditos na imagem


Minha primeira visita ao asilo.
Eu tinha 15 anos.
Entrei na sala escura, com sofás de couro vermelho e cadeiras de rodas.
Recebi muitos sorrisos, apertos de mão e olhares com um sem fim de sentimentos.
Mas foi um olhar, astuto e divertido, que mais me chamou a atenção.
Ele vinha de olhinhos miúdos, emoldurados por um cabelo curtinho, branco e rebelde.
Sentada confortavelmente no sofá, usando um vestido de bolinhas que caía graciosamente sobre seu corpo gorducho – e que eu veria muitas vezes mais, mas não tantas quanto eu gostaria – , estava uma senhora recém-chegada ao asilo.
Quando me aproximei dela naquele novembro quente, quando aquele olhar cheio de vida pousou em mim, eu nem podia imaginar que estava prestes a conhecer minha melhor amiga.
Autora: Larissa Lopes

Visita ao asilo

No dia 03/10, eu e um grupo de amigos visitamos um asilo. Chegamos lá por volta das 14h, horário em que os idosos já tinham almoçado, e estavam descansando.

Em seguida, fomos conversar com eles que ali moravam. Nessa conversa, os idosos nos contaram partes de sua realidade cotidiana e história de vida. Chamou minha atenção a felicidade que alguns deles ficaram pelo simples fato da gente ter dado um pouco da nossa atenção a eles.

Vitória (no centro de branco) e seus amigos durante a visita ao asilo
No entanto, ficou evidente por meio da conversa, que a maior carência deles é afetiva. Muitos foram esquecidos pela família, que não realizam visitas, nem nas datas importantes. Fiquei muito comovida com tudo que pude ver lá, em especial de uma senhora que me contou que é sozinha no mundo, que não tem mais parentes.

Isso trouxe para mim uma nova formar de olhar a vida, porque com alguns depoimentos pude perceber que, às vezes, a felicidade se encontra nas simples coisas da vida, como um carinho, uma atenção e gentileza. Esses detalhes fazem toda diferença.


Eu só quero agradecer por ter ido lá, por ter aprendido todas essas coisas, e por saber que essa visita fez toda diferença para esses idosos.

Autora: Vitória Ercolini

sábado, 5 de dezembro de 2015

Dona Nair



Nair, mulher senhora.
Mulher de muitas dores,
mulher de dois amores.

Nair, mulher sábia.
Mulher que vê o mundo com o coração,
mulher que ensina o perdão.

Nair, mulher vivida.
Mulher que emana amor,
mulher que não enxerga dor.

Nair, que não se cala.
Nair, que de amor fala.
Nair para sempre em meu coração.

Autora: Nauali Ghattas

Minha amiga hipotética

Não me lembro o nome dela, neste instante me falha a memória, mas se tem uma coisa que me recordo é do que temos em comum: nós duas amamos comer.

Imagem mera - e infelizmente - ilustrativa

Sorvete, pamonha, pizza, bolo, brigadeiro, coxinha... E tudo mais que a gente saliva e sente água na boca só de imaginar.

Esse cardápio pode não ser dos mais saudáveis, mas é daqueles que torna o ato de comer não somente uma obrigação de nutrir o corpo, mas algo prazeroso.

Para uns, isso pode soar como bobagem, para outros, pode parecer gula. Mas a ideia aqui é que parar de vez em quando para se deliciar com lanchinhos saborosos enquanto conversa com amigos é um daqueles poucos prazeres que nós não devemos nos privar. E, pelo que parece, isso não muda com o passar dos tempos, e é bom em qualquer idade, seja aos 24, seja aos 70 anos.

E é por isso que eu me identifiquei com aquela senhora simpática. E aposto que se a gente sentasse algum dia para comer alguma gordice, iríamos conversar e nos deliciar o dia inteiro!

Autora: Nahida Almeida Ghattas

A lição de Nair


Nair não enxerga direito, mas vê as coisas melhor que muita gente. Enquanto muitos inventam desculpas para não ajudar o próximo, ela batia de porta em porta para pedir roupas e alimentos e doar a quem precisa.

Enquanto alguns reclamam e se estressam por perder o ônibus, elas perdeu dois maridos e um filho e ainda assim nos recebe para conversar sua história com um sorriso no rosto.

É fato que Nair viveu. Ajudou, sofreu, amou, cuidou e hoje não se acanha em compartilhar suas experiências e conhecimentos com quem tiver disposto a ouvir.

E a lição que ela deixa é: viva! A vida sempre será cheia de altos e baixos, isso é inevitável e incontrolável. Mas se tem uma coisa que podemos controlar é a nossa atitude em relação a esses acontecimentos. E como Nair nos ensinou, que ela seja sempre positiva.

Autora: Nahida Almeida Ghattas

Asilo São Vicente de Paulo: sinônimo de vida

Durante a proposta do projeto Memórias na Rede, que tem como objetivo principal a inclusão da pessoa idosa na sociedade, fomos até o asilo São Vicente de Paulo, em Bragança Paulista, conhecer em loco a realidade de cada idoso asilado nessa instituição.

Entrada do Asilo São Vicente de Paulo
Foto: Via BJD
Ao longo da visita, foi abordada uma senhora muito alegre de 62 anos, que se chama Maria. O que mais me chamou a atenção foi o seu sorriso meigo e iluminado, cheio de carisma, que logo veio ao meu encontro para conversar. Quando dona Maria se aproximou, logo percebi que ela estava com algo em mãos.
Diante disso, eu perguntei para ela o que segurava tanto em sua mão, daí quando ela abriu, logo pude observar dois cigarrinhos amassado e um isqueiro. Dona Maria gosta muito de fumar, esse é seu passatempo preferido.
O intrigante é que ao começar contar sua história, ela afirma que chegou muito debilitada na instituição, apresentando vários problemas de saúde e que vivia numa situação muito precária, e muitas vezes afogava suas mágoas no alcoolismo.
Hoje com a saúde recuperada, desfruta de momentos muito agradáveis com suas companheiras da instituição, como sair para lanchar, dançar e respirar ar puro no Jardim Público.
Diz até mesmo que a situação de abrigo, foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida, pois ali conquistou novas amizades e ganhou uma cirurgia plástica nos olhos, algo que elevou muito sua autoestima.
Nessa perspectiva, hoje dona Maria reconheceu sua própria identidade, pois diz que não lhe falta exatamente nada, e que sua nova morada pode proporcionar algo que até então não conhecia: qualidade de vida.

Autor: Marcio Barreto